Uma mulher em busca de ar

Filme francês conta a trajetória da escritora Violette Leduc, que, com apoio de Simone de Beauvoir, corajosamente expõe sexualidade e angústia em sua obra

Gláucia Leal

Poderia ser um filme sobre o romance (apenas insinuado) entre duas mulheres. Ou a história de uma escritora que, apesar de todos os percalços e dificuldades, insiste no sonho de viver da literatura que produz. Ou ainda a biografia de uma mulher solitária que, com sua narrativa contundente, corajosamente escancarou – de forma incômoda, a ponto de ser censurada em sua época – aspectos da sexualidade feminina. E certamente Violette, filme de Martin Provost, tem todos esses aspectos. Mas não só.

O recorte da vida da francesa Violette Leduc, interpretada por Emmanuelle Devos, apresenta a história de uma mulher atormentada pela rejeição e pelos maus-tratos sofridos na infância. É por meio da escrita que, ao longo dos anos, ela desenvolve a possibilidade de cuidar-se amorosamente. Esse trajeto em direção a si mesma é sustentado de variadas maneiras – afetiva, intelectual e material – pela escritora Simone de Beauvoir, vivida pela atriz Sandrine Kiberlain.

Ao contrário do que algumas sinopses do filme possam sugerir, desde que as duas personagens se encontram, em Paris, no fim da Segunda Guerra, o que se configura não é exatamente uma relação de paixão ou desejo – pelo menos não no sentido mais comum desses termos. É como se cada uma das escritoras se apaixonasse por aspectos próprios, pouco elaborados, mas que reconhecem mutuamente. São, porém, sentimentos truncados, atravessados por carências e uma dose de desconforto. Surgem entre elas certa dependência e rivalidade, permeadas pela atração. E um jeito (às vezes negligente ou invasivo) de cuidar uma da outra. Prevalece algo de maternal e continuamente frustrante. O vínculo – difícil de ser nominado – se constitui no conflito: em alguns momentos as duas mulheres parecem completamente distantes e em outros prevalecem as projeções que uma faz sobre a outra. A solução, talvez o sintoma, seja justamente a relação entre elas.

De um lado, Violette se sente feia, desinteressante, fracassada. Anseia ser vista, amada, desejada. Nascida em 7 de abril de 1907, filha de uma empregada doméstica e de um homem casado que manteve por vários anos um relacionamento com sua mãe, sem nunca assumir a menina, ela lamenta profundamente não ter recebido mais carinho da mãe na infância. Sentindo-se tão desprotegida, a mera ideia de um dia vir a ter um filho “que seria tão infeliz quanto ela mesma” a apavora. Tanto, que mesmo mentir dizendo que está grávida para salvar a vida de um amigo lhe parece inconcebível e completamente além de suas forças.

De outro lado, Simone, integrante da vanguarda intelectual francesa, reconhecida por seu trabalho, forte e convicta de seus ideais, também vive seus momentos de solidão e parece ver em Violette uma possibilidade de autorrealização, a aposta em um talento que aos poucos vai sendo lapidado. É como se na amiga ela pudesse reconhecer a fragilidade, mas não se conformar com ela. Diante das lágrimas, da angústia e da falta de perspectivas de Violette, Simone é categórica: “Escreva”, insiste.

De fato, sua “pupila” produziu ao todo 13 obras, a maioria bastante ousada; só A bastarda e Teresa e Isabel foram lançadas aqui. Seu primeiro livro, L’asphyxie, de 1946 (Asfixia, não publicado no Brasil), é uma referência à falta de oxigênio, uma metáfora do escasso investimento libidinal. Na vida adulta, de certa forma, Simone desempenha o papel da figura materna que alimenta Violette com olhar, reconhecimento e incentivo.

O filme me faz lembrar uma frase da psicanalista Regina Neri, em seu livro A psicanálise e o feminino: um horizonte da modernidade (Civilização Brasileira, 2005): “Ao se apropriar do espaço cultural, o feminino aponta para uma cultura que se rompe com o pacto civilizatório e na qual a sublimação não é dessexualização, mas o corpo erótico, inscrevendo uma estética de vida. Como afirma Breton em sua homenagem à histeria, no fim do romance Nadja: a beleza será convulsiva ou ela não será”. Nesse sentido, podemos pensar que Violette tenha encontrado outra forma de “ser bela”, rompendo com padrões estéticos impostos. Isso, porém, só se torna possível na medida em que ela, aos poucos, abandona a obrigação (de fato asfixiante) de ser amada e nutrida. Nesse processo, permitindo-se encontrar a redenção na palavra (não falada, como na análise, mas na escrita), alcança a possibilidade de reconciliar-se – primeiro subjetivamente, depois concretamente – com sua mãe biológica. E, acima de tudo, consigo mesma.


Releated

narcismo

Narcisismo – sinal de perigo

Narcisismo – a opinião excessivamente positiva a respeito das próprias habilidades prejudica o senso crítico e favorece decisões precipitadas e comportamentos impulsivos, o que pode levar a pessoa a se colocar em situações desconfortáveis ou até mesmo perigosas.   Não raro, pessoas com traços narcísicos marcantes se colocam em situações que prejudicam a si próprios. […]

enxaqueca

Enxaqueca é coisa séria!

Durante as crises de enxaqueca, cada batida do coração, que normalmente não seria sentida, dói como uma martelada; odores e imagens podem desencadear o problema.   Talvez seja o seu caso, e provavelmente é o de alguém que você conhece: 10% da população experimenta um tipo específico de dor de cabeça que deixa as outras […]