silêncio

Silêncio, por favor…

Silêncio é fundamental para o bem-estar psíquico e físico, a quietude tanto incomoda quanto fascina, mas também ajuda a explicar como recebemos e processamos estímulos sensoriais.

por Emanuela Zerbinatti e Daniela Ovadia

Quem nunca teve de pedir uma trégua aos ruídos? Se no passado o problema dizia respeito apenas às cidades, hoje o barulho está invadindo também os lugares mais isolados. Especialistas definem o fenômeno como uma “rumorização dos espaços vitais” e advertem: esse excesso constante de sons e os altos decibéis são prejudiciais à saúde. Não se trata apenas de danificar a audição, mas também de provocar problemas indiretos de o ruído ser interpretado como um sinal de alarme pelo cérebro, que, através do sistema neurovegetativo e da produção do hormônio do estresse, o cortisol, desencadeia reações generalizadas no organismo.

A pressão sobe, aumentando o risco de doenças cardiocirculatórias como o infarto; as defesas imunológicas diminuem e a tiroide tem mais probabilidade de falhar. Mas, sobretudo, o barulho altera o humor, causa irritação, provoca distúrbios do sono e cefaleia.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) fala em “poluição sonora” e evoca o direito não apenas à saúde – e, portanto, à proteção dos efeitos diretos do ruído –, mas também à tranquilidade no sentido mais amplo de um bem-estar global, físico, psíquico e social. Em resumo, advoga o direito ao silêncio. Porém, este não se restringe apenas à ausência de ruídos, mas também de palavras.

Para muitos, o imperativo “faça silêncio” é mais uma punição, uma obrigação, uma imposição (talvez resquício de recordações do autoritarismo sofrido na infância). A própria modernidade, apoiada na “razão”, cerca-se de palavras para apresentar sua lógica – quando há confiança ilimitada no poder da racionalidade existe também dependência do argumentar, do falar. O silêncio é vivido, então, como uma dolorosa privação.

Fala-se muito, mas se comunica pouco

Às vezes, é resultado de uma escolha, significa renúncia, uma forma de ausentar-se. Mas aí se esconde uma armadilha – o que se obtém não é a libertação das palavras, mas o esvaziamento de significados delas. Esse, aliás, é um dos dramas contemporâneos: fala-se muito, mas se comunica pouco. No mundo ocidental a ausência de sons é percebida como negativa, o silêncio provoca desconforto, pesa – em geral, as pessoas não sabem como utilizá-lo. Quem não fala é julgado negativamente: causa constrangimento ao interlocutor, por “não saber o que dizer”. O silêncio também pode ser compreendido como “o desejo de não falar” – o que desencadeia a ansiedade de interpretação; ou ainda é possível que seja visto como sintoma de uma situação conflituosa não declarada, implícita.

Se a pessoa está em um grupo, é como se tivesse a obrigação de falar, mesmo que não sinta necessidade ou vontade de fazê-lo. Da ideia de que o silêncio é ausência (e não presença) resulta o fato de que o indivíduo se diferencia pouco da coletividade: pode e deve existir na relação com o outro, mas não exclusivamente para si próprio, momentaneamente desconectado da rede social. Entretanto, estar em silêncio pode ser um modo de se encontrar e de se ouvir, retomar para si o espaço subjetivo.

As culturas orientais, em geral, utilizam muito a linguagem não verbal, atribuindo significados bem mais positivos ao silêncio; a ausência de palavras é preservada com grande consideração, seja como parte de rituais e em momentos de reflexão, seja como forma de instigar a sabedoria. Sua prática é indispensável às interações com a natureza e às relações humanas. Na maioria das religiões do Oriente, é vista ainda como condição necessária à manifestação do sagrado e ao desenvolvimento da transcendência. Nessa busca, o ruído externo é compreendido como empecilho ao recolhimento e à paz interior; já a quietude representa fuga das distrações e das preocupações que conturbam e agitam a alma que reza.

O outro lado do barulho

O cineasta alemão Philip Gröning se propôs mostrar “o outro lado do barulho” em O grande silêncio, de 2006. Poucos teriam apostado naqueles 164 minutos rodados sem comentários, diálogos, entrevistas ou músicas. Há apenas raras legendas e sons naturais para acompanhar a vida monástica da ordem dos cartuxos no interior do mosteiro Grande Chartreuse, nos Alpes franceses, ao norte de Grenoble. O filme foi classificado como documentário, apesar de não ter sido o objetivo de Gröning fazer um reality da vida monástica. Queria um filme sobre o transcorrer do tempo e mergulhou sozinho, por seis meses, na atmosfera do mosteiro: apenas ele e a câmera com a qual podia filmar no máximo duas horas por dia, por determinação do prior geral, que o proibiu também de usar luzes artificiais, músicas ou comentários.

Para não perturbar a rotina dos monges, Gröning foi acolhido do mesmo modo que os noviços, como qualquer um que deve entrar para fazer parte da ordem. “No silêncio que reina aqui dentro, qualquer estalo ou rangido parece ultrajante”, conta o cineasta, que, nessa atmosfera, procurou mover-se o mais silenciosamente possível. “Se no início da minha estadia era insuportável para mim mesmo o ruído que eu fazia com o equipamento, sobretudo quando devia começar uma filmagem, no final, até o esfregar do tecido da minha roupa me parecia insuportavelmente ruidoso; o mais difícil era conviver com o ruído que eu mesmo produzia.” Ele percebeu, então, que “apenas quando se está em um completo silêncio é que se começa a escutar; só quando a linguagem desaparece, se começa a ver”.

As culturas orientais, em geral, utilizam muito a linguagem não verbal; a ausência da palavra é preservada com grande consideração e vista como forma de buscar a sabedoria

O filme silencioso propõe outra forma de compreensão, segundo o diretor: libera a percepção do tempo da prisão de uma história construída com a linguagem. A crítica o definiu como “uma obra de arte maldita, um retrato maravilhoso e eterno de uma vida inimaginável”, e o público (embora restrito) ficou fascinado. Somente para Gröning a reação não foi surpresa: “Sabia o quanto é forte a necessidade de um pouco de espiritualidade; apenas demonstrei que não é preciso sair em busca da própria alma longe de si, e talvez isso seja o mais intrigante”.

No entanto, há uma dimensão dramática do silêncio que transcende a cultura. É sua manifestação “muda” – sem palavras ou pleno de palavras sem sentido –, que irrompe como um grito de dor de um vazio profundo, que se expressa como a impossibilidade de abrir-se para a relação. É o silêncio da doença, da depressão ou da esquizofrenia, do autismo ou do mutismo seletivo.

Porém, a melhor resposta, segundo a psicanálise, é ainda o silêncio: não o da indiferença de quem não pode ou não quer sentir a dificuldade, mas aquele manifesto pelo terapeuta de forma consciente e acolhedora, no intuito de ajudar o paciente a reconstruir os fragmentos da própria vida. “Se deseja que alguém entre em seu mundo, é preciso, antes, dispor-se a aproximar-se do universo alheio”, escreveu o psiquiatra americano Milton Erickson (1901-1980), autoridade mundial em hipnose. A passagem para esse “mundo dos outros” é a capacidade de escutá-los: mas se é verdade que nem sempre o silêncio é ouvido, a escuta é sempre, e acima de tudo, silenciosa. É por essa razão que o terapeuta se cala e se retrai para dar lugar ao outro, o paciente.

A ausência da palavra

Nas relações humanas particularmente intensas é possível experimentar a embriaguez de uma comunicação mais elevada, sem palavras. Trata-se, porém, de um jogo refinado. Também o “não dito” é um código de comunicação a ser interpretado. O risco poderia ser construir uma estrutura comunicativa não suficientemente estável, interpretada de forma incorreta caso não se levem em conta fatores pessoais e culturais de quem “ouve” o silêncio.

A ausência da palavra, no entanto, não indica necessariamente a ausência de comunicação. O homem se comunica abstraindo: cada gesto traz em si uma mensagem. O próprio Sigmund Freud, criador da psicanálise, chamada em seus primórdios de terapia pela fala, considerava que a palavra era apenas o “melhor método” de comunicação – evoluído, porém, de um meio mais arcaico baseado na transmissão do pensamento por meios não verbais.

Muitas das interpretações psicológicas, psicanalíticas e sociológicas sobre esse tema têm contrapartida neurocientífica, baseada em pesquisas que se propuseram a estudar a atividade neurológica durante o silêncio: ao que parece, mesmo na ausência de sons, o cérebro permanece na expectativa de ouvi-los – ou então os imagina.

O silêncio é fundamental para que possamos ouvir melhor

Entre os vários estudos que chegaram a essa conclusão, um dos mais recentes e precisos, publicado no Journal of Neuroscience, indicou que durante períodos de quietude o cérebro ativa as mesmas áreas específicas destinadas à compreensão do som. Um grupo de pesquisadores franceses demonstrou que, quando disseram aos participantes do estudo que em breve escutariam um som proveniente da direita ou da esquerda, imediatamente o cérebro deles ativou as áreas do córtex auditivo primário.

Outros pesquisadores observaram que, quando pediam a voluntários que escutassem trechos conhecidos de música em que partes eram substituídas por pausas, nos momentos “vazios” eram ativadas regiões do córtex auditivo primário e associativo, fazendo com que esses ouvintes tivessem uma sensação de “continuidade musical”. Mas se os trechos eram desconhecidos, nas pausas não era registrada nenhuma atividade neural semelhante, nem havia percepção de continuidade. Ou seja, o silêncio é fundamental para que possamos ouvir melhor.


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