raiva

De frente com a raiva

A raiva é claramente oposta à paciência, essa habilidade de se manter emocionalmente estável e tolerante, diante de incômodos e dificuldades. Apesar dos estragos que pode causar, cientistas apostam que é possível usar esse sentimento de forma saudável.

Alguns autores argumentam que a raiva tem seu lado positivo, desde que seja usada de maneira adequada. “Qualquer um pode irritar-se, isso é fácil; difícil é zangar-se com a pessoa certa, na medida certa, no momento certo, com o propósito certo”, escreveu Aristóteles, há mais de 2000 anos, em sua obra clássica A arte da retórica. Ter essa medida, entretanto, não é fácil. Justamente por isso tendemos a associar a ira ou mesmo a irritação à destrutividade – o que é bastante compreensível, já que essa emoção realmente pode destruir relacionamentos e carreiras profissionais. O segredo para reverter esse quadro pouco promissor parece estar na clareza a respeito de quando, onde, como e por que dar vazão a essa emoção – sem que ela nos controle.

Um estudo particularmente interessante sobre a raiva veio na esteira dos ataques terroristas de 11 se setembro de 2001, nos Estados Unidos. A psicóloga Jennifer Lerner, atualmente na Universidade de Harvard, reuniu informações sobre as emoções e atitudes de aproximadamente mil americanos adultos e adolescentes apenas nove dias após os atentados e continuou o acompanhamento nos anos subsequentes. Ela descobriu que as pessoas que se sentiram irritadas com o terrorismo foram mais otimistas sobre o futuro do que aqueles que simplesmente tinham medo de novos ataques. Os homens do estudo se mostravam mais irritados que as mulheres, e eram geralmente mais otimistas.

Estudos sobre a raiva

Em um estudo de laboratório, publicado no periódico científico Biological Psychiatry, Jennifer Lerner descobriu que aqueles que sentem raiva em vez de medo numa situação estressante têm resposta biológica menos intensa, com menor variação da pressão arterial e dos níveis de hormônios do estresse. Isso mostra que quando você está em uma situação enlouquecedora e sua raiva é contextualizada, a emoção não é necessariamente ruim – desde que fique restrita a aquela situação.

“Por sua natureza, a raiva tende a ser uma emoção bastante energizante, e desde que bem encaminhada pode ajudar promover mudanças na vida pessoal e social”, diz o psicólogo Brett Ford, na Universidade da Califórnia, em Berkeley. Por exemplo: sentir raiva da própria preguiça ou impulsividade, que constantemente trazem problemas à própria pessoa, pode impulsionar a mudança desses comportamentos.

Nesse caso, a raiva tem o importante papel de criar uma separação psíquica entre o eu e aquilo que incomoda – no caso, a preguiça ou impulsividade. Essas características não “são” a pessoa e, dessa maneira, podem ser arrefecidas, transformadas. É como se a ira estivesse direcionada para curar em vez de ferir. Mas é importante respeitar o “prazo de validade” da raiva. Remoer a irritação (ainda que seja consigo mesmo, com atitudes depreciativas e autopunitivas), sem se direcionar para alterar aquilo que incomoda costuma ser meramente autodestrutivo.

A raiva também pode ser de vital importância para mobilizar apoio para um movimento social. A psicóloga Nicole Tausch, professora da Escola de Neurociência e Psicologia da Universidade de St. Andrews, no Reino Unido, afirma que em contextos políticos, principalmente quando as pessoas se engajam de manifestações pacíficas na esperança de convencer o adversário a corrigir injustiças sociais, a raiva pode sinalizar que os participantes se sentem ligados e representados pelo sistema político. “Expressões de raiva durante os protestos, podem ser vistas não como ameaças ao sistema, mas como sinais de uma democracia saudável”, afirma.

Um estudo recente conduzido pelo psicólogo Andrew Livingstone, da Universidade de Stirling, no Reino Unido, enfatiza a ideia de que, em caso de ameaça, a raiva pode ter efeito protetor, fazendo com que as pessoas se mobilizem para se protegerem não só a si mesmas, mas também umas às outras. Para chegar a essa conclusão sua equipe trabalhou com dois grupos de pessoas: no primeiro deles os participantes tinham em comum a procedência do sul do País de Gales; no segundo a formação era aleatória. Nos dois casos foram medidas as reações emocionais desencadeadas nos participantes ao ser dito aos voluntários que o governo retiraria o apoio oferecido a moradores do sul do País de Gales. Irritadas, as pessoas passaram a se articular buscando formas de reverter esse quadro.

Conquista da paciência

É possível adotar práticas que ajudam a manter a serenidade e o relaxamento, nos momentos mais críticos. O diferencial está no treino: exercitar conscientemente uma atitude calma quando estamos tranquilos é fundamental para enfrentar as tormentas com maior equilíbrio

Assuma –  Não adianta negar, esconder ou disfarçar a irritação. Simplesmente admitir o que está sentindo e aceitar que isso às acontece, sem fazer julgamentos, em muitos casos é suficiente para acalmar-se.

Chegue “perto” – Entre em contato com a sensação incômoda. Mesmo em meio ao caos emocional, tome alguns minutos para você. Sente-se em silêncio, preste atenção à sua respiração, deixe que a sensação de raiva ou tensão se manifeste e apenas a “observe” o que sente por alguns minutos.

Deixe a poeira abaixar -Tente não pensar sobre a raiva nem falar dela na hora da irritação, isso só vai deixá-lo ainda mais enfurecido.

Afaste-se –  Se acha que pode fazer algo de que possa se arrepender no futuro, fique longe do objeto de raiva. Tenha em mente que a fúria passa, mas os estragos feitos podem permanecer por muito tempo.

Cuidado com a metralhadora –  Em geral, evitamos despejar a ira sobre as figuras de autoridade que nos incomodam, mas podem promover alguma retaliação. Parece mais fácil descontar o mau humor sobre aqueles que não podem se defender, como os que ocupam cargos subalternos, ou pessoas próximas, que sabemos que nos amam (filho, pais, amigos ou cônjuges).

Não justifique –  Passado o auge da raiva, é comum buscarmos estratégias para culpabilizar o outro, mas a verdade é que somos responsáveis por nossas escolhas e atitudes. Não importa o que o outro fez – ele não obrigou você a fazer o quer que fosse.

Respire – A primeira pista da perda de controle é a alteração da respiração. Por isso, quando se sentir irritado, preste atenção na cadência com que inspira e expira e no percurso que o ar faz dentro do seu corpo.

Faça o que lhe faz bem – Em vez de continuar sob o efeito desgastante da situação que provocou tanto estresse, mude o foco. Desligue-se conscientemente do que o incomoda e dedique-se a fazer algo que lhe traga bem-estar: fique perto da natureza, leia um livro ou assista a um filme, de preferência divertido

Considere outro jeito de agir – Passado o momento irritação, pense na situação que provocou o descontrole e imagine-se exatamente no mesmo contexto agindo de outra forma com mais serenidade, escolhendo as palavras e o tom que realmente gostaria de usar.

Procure ajuda – Falar sobre o que o aborrece com amigos ou colegas não costuma trazer grandes benefícios, principalmente se a irritação acontece com frequência. O mais indicado é tratar do assunto numa sessão de psicoterapia, num ambiente protegido, em que a situação possa ser ressignificada com a ajuda de um psicólogo.


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