cachorros inteligentes

Adoráveis manipuladores

Assim como as pessoas, os cães têm inteligências múltiplas e apresentam “maneiras únicas” de usar as próprias habilidades obter o que querem – seja alimento ou afago.

Os donos de cachorro, em geral, estão convencidos de que seu animal de estimação é um verdadeiro gênio. Apesar disso, durante muito tempo, os cientistas não levaram a questão muito a sério. Atualmente, no entanto, diversas pesquisas sugerem que os cães são bastante inteligentes e – o que também não é novidade para quem convive com esses bichinhos – são também únicos, têm características e maneiras próprias de se expressar. O antropólogo Brian Hare, professor adjunto do Departamento de Antropologia Evolucionária e do Centro de Neurociência Cognitiva da Universidade de Duke, é um dos principais pesquisadores do tema.

Fundador do Centro de Cognição Canina Duke e autor do livro The genius of dogs, Dutton Adult, lançado este ano, (A genialidade dos cães, sem versão em português) em parceria com sua mulher, a jornalista Vanessa Woods, Hare acredita que as pessoas costumam ter ideias equivocadas a respeito do funcionamento mental dos cachorros. Por exemplo: não há cães “inteligentes” ou “tolos”. Por trás dessa forma de pensar está o entendimento – ultrapassado – de que a inteligência é algo unidimensional, ou seja, permanece a suposição equivocada que há somente um tipo de capacidade mental.

Na verdade, há várias expressões de inteligência. Assim como pessoas têm talentos variados, cachorros diferentes são bons em coisas diversas. Porém, as estratégias às quais esses animais recorrem nem sempre são evidentes sem avaliações cognitivas. Por isso, não raro, subestimamos a capacidade desses animais. “Ao observar um pug babando no seu sapato pode não parecer que seja a ação mais genial do mundo, mas vale lembrar que essa raça é originária de uma longa linhagem e faz parte de uma das espécies de mamíferos mais bem-sucedidas do planeta, além de nós, humanos”, afirma Hare. “Esteja certo de que, ao seu modo, esse bicho é um gênio”.

 

Leitores de gestos

O antropólogo observa que, como espécie, os cães são notáveis em alguns aspectos: compreendem a perspectiva visual de uma pessoa e aprendem com as ações do dono. Em sua pesquisa, Hare procurou saber como os cachorros buscam convencer os humanos atender suas vontades. A maior parte dos seus estudos com esses animais têm sido sobre sua capacidade cooperativa, o modo como se apropriam de gestos de comunicação humana e os utilizam. Basicamente, a proposta é descobrir de que maneira interpretam nossos sinais para nos entender – e, assim, conseguem obter o que querem.

No entanto, há outros bichos com grande capacidade mental. O que torna os cães únicos? Baseando-se na teoria evolucionista, constamos que cada animal desenvolveu inteligência de maneira particular, moldada pela natureza e pelas experiências de cada espécie. No caso dos cachorros, a capacidade que se destaca é a de ler gestos de comunicação humana. “Admitimos que os cães podem facilmente usar esses sinais para encontrar um brinquedo escondido ou um pouco de comida, no entanto, nenhuma outra espécie consegue, de maneira instintiva, ler nossos movimentos de forma tão adaptada como esses bichos”, observa Hare.

Essa habilidade permite que eles sejam incríveis parceiros sociais do homem – seja na caça, ajudando em alguma tarefa ou mesmo como companhia na vida cotidiana. Além disso, essa característica é fundamental para conseguir que alguém os auxilie na hora de resolver problemas que não podem solucionar por conta própria.

 

Teste do bocejo

Tendemos a imitar os as ações e os movimentos de outras pessoas. Isso não é difícil de perceber: quantas vezes nos surpreendemos sorrindo de volta para alguém que nos sorri ou choramos quando notamos uma pessoa passando por grande aflição? A capacidade de “pegar” emoções alheias é chamada de contágio emocional – imitar o gesto de alguém que boceja é um ótimo exemplo desse funcionamento. Basta ouvir uma pessoa abrir a boca ou até mesmo pensar na cena para sentir uma vontade irresistível de fazer o mesmo. O fenômeno está relacionado à capacidade de empatia.

Indícios sugerem que cães também têm essa habilidade. Avaliá-la em seu cachorro é muito fácil: apenas tente bocejar e perceba se o bicho copia sua ação. Embora simples, a avaliação pode dizer muito sobre seu cachorro. A repetição do gesto mostra que ele provavelmente tem uma grande conexão emocional com o dono “bocejador” e é capaz de prestar atenção em manifestações como alterações no tom de voz, movimentos corporais e até expressões faciais que denotem estados de humor ou prenunciem comportamentos.

Nosso vínculo com os cães

Hare reconhece, no entanto, que não é fácil projetar testes que avaliem quando um animal é empático. A maioria das pesquisas sobre essa capacidade depende do relato de sentimentos – e os cachorros obviamente não podem dizer o que sentem (pelo menos não de maneira que possamos entendê-los). Talvez por isso seja difícil determinar com exatidão quando de fato os cães agem com empatia em relação a seus parceiros humanos e em que momento se trata apenas da imaginação do dono ou de sua necessidade de acreditar que o animal realmente o compreende, projetando nele os próprios sentimentos e expectativas.

No entanto, estudiosos costumam concordar que há algo definitivamente singular no vínculo com os cães: sua habilidade em entender nossos gestos por meio dos quais nos comunicamos oferece indícios de forte sintonia conosco. E a atenção em cada movimento que fazemos nos faz sentirmos especiais. Qualquer pessoa que tenha um cachorro pode relatar como se sente feliz quando seu pet vem cumprimentá-lo à porta balançando a cauda – é difícil não acreditar que o sentimento seja recíproco.

“A alguns estudos mostram que esses bichos preferem passar o tempo em companhia dos humanos em vez de ficar com os de sua própria espécie, um comportamento de maneira geral bastante incomum para um animal”, afirma Hare.

Além do teste do bocejo contagioso, que sugere que os cães têm ao menos uma forma básica de empatia, estudos mostram que tanto pessoas quanto cachorros (pelo menos a maioria deles) experimentam aumento na ocitocina, hormônio relacionado ao prazer, quando há interação afetiva, em momentos, por exemplo, em que o cão é acariciado. E, curiosamente, a ativação é maior quando o animal entra em contato com uma pessoa do sexo oposto.


Releated

silêncio

Silêncio, por favor…

Silêncio é fundamental para o bem-estar psíquico e físico, a quietude tanto incomoda quanto fascina, mas também ajuda a explicar como recebemos e processamos estímulos sensoriais. por Emanuela Zerbinatti e Daniela Ovadia Quem nunca teve de pedir uma trégua aos ruídos? Se no passado o problema dizia respeito apenas às cidades, hoje o barulho está […]

raiva

De frente com a raiva

A raiva é claramente oposta à paciência, essa habilidade de se manter emocionalmente estável e tolerante, diante de incômodos e dificuldades. Apesar dos estragos que pode causar, cientistas apostam que é possível usar esse sentimento de forma saudável. Alguns autores argumentam que a raiva tem seu lado positivo, desde que seja usada de maneira adequada. […]